As prateleiras dos supermercados estão cada vez mais ocupadas por embalagens que prometem saúde. Barras proteicas, pães sem glúten e shakes com gosto de sobremesa formam as chamadas “Gôndolas da Ansiedade”. Elas não vendem apenas comida. Vendem a ideia de que o consumidor está sempre em falta e precisa de algo industrial para se sentir bem.
Li o artigo, da nutricionista Desire Coelho que utilizou a expressão “Gôndolas da Ansiedade” e aquilo me marcou profundamente. Seu relato sobre a experiência em um supermercado e a crítica aos produtos que prometem saúde enquanto os alimentos de verdade ficam de lado inspirou esta reflexão.

A lógica por trás delas é simples e cruel. A indústria primeiro coloca no mercado alimentos que adoecem. Produtos ultraprocessados, cheios de aditivos, açúcares escondidos, gorduras e sais em excesso, criam o terreno fértil para o desconforto.
Depois, no mesmo corredor, oferece a solução com versões “saudáveis” do mesmo problema. O consumidor passa a sentir culpa. Come o que adoece, sente o corpo pesado e corre atrás de produtos que prometem consertar o que o próprio sistema criou.

Logo dados recentes mostram o tamanho dessa máquina. Entre novembro de 2020 e novembro de 2024, 62% dos novos alimentos embalados lançados no Brasil eram ultraprocessados, segundo relatório do Ministério da Saúde em parceria com a Anvisa e o Nupens da USP. Apenas 18,4% eram in natura ou minimamente processados. Os alimentos que adoecem não são acaso. São o motor do negócio.
Ai o mercado “fit” completa o círculo. Um outro estudo publicado em 2025 na revista Ciência & Saúde Coletiva analisou 146 produtos comercializados com o termo fit ou fitness no Brasil. 79% eram ultraprocessados. 75% apresentavam pelo menos um nutriente crítico em nível elevado segundo critérios da Organização Pan-Americana da Saúde.

Ademais os rótulos exaltam proteínas, fibras e zero açúcar, mas a lista de ingredientes revelava o mesmo padrão industrial de sempre. O consumidor olha a frente da embalagem e sente que está fazendo a escolha certa. Na verdade, está alimentando a mesma lógica que o deixou ansioso.
E também tem a questão do comportamento, como se comporta no supermercado? Quais motivos realmente te levam a colocar aquele produto no carrinho? Você escolhe pelo sabor, pelo preço, pela memória de infância ou pela promessa escrita em letras grandes na frente da embalagem?
Do mesmo modo que eu mesma já me peguei várias vezes andando pelos corredores e parando diante de uma embalagem com a palavra “proteína” em destaque. O design funciona. Cores, tipografia, fotos de pessoas sorrindo e frases que acalmam a culpa fazem o cérebro baixar a guarda. A embalagem tem poder. Ela não informa. Ela seduz.

Bem como transforma um ultraprocessado comum em solução urgente para uma ansiedade que o próprio produto ajudou a criar. Estudos de marketing alimentar, como a revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 no British Journal of Nutrition, mostram que a exposição a estratégias de promoção e embalagens de produtos menos saudáveis aumenta de forma significativa a intenção de compra, a escolha e o consumo desses itens tanto em crianças quanto em adultos.
Agora quando esse jogo migra para o digital, a compulsão escala. Algoritmos, influenciadores e anúncios personalizados empurram as mesmas gôndolas para dentro da tela do celular. A compra deixa de ser deliberada e vira reflexo. Um clique, e o carrinho enche de produtos que prometem saúde e entregam mais ansiedade.

Alem do mais a internet amplifica o ciclo. O que antes era uma decisão no corredor do supermercado agora acontece em qualquer horário, com a sensação de urgência fabricada pela internet e ficamos presos a um ciclo ruim que ganha cada vez mais velocidade e gente ansiosa. # Gondolas da Ansiedade
Assim a próxima vez que você passar por aquelas prateleiras coloridas, lembre-se quem esta no comando do seu carrinho de compras. A escolha de interromper esse jogo começa no momento em que a gente deixa de acreditar nas promessas e volta a confiar no que a natureza sempre ofereceu sem necessidade de propaganda.
Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia
https://belicosa.com.br/motivo-de-compra-e-pecado-capital/
https://www.olhardireto.com.br/artigos/artigo-27
Porque os supermercados se transformaram em Gôndolas da Ansiedade