O Dia das Crianças chega e, com ele, a avalanche de presentes eletrônicos: celulares, tablets e consoles que, em poucos dias, passam a ocupar horas da rotina de meninos e meninas. O que deveria ser alegria se transforma, com frequência, em excesso de tela, e a ciência dos últimos anos não deixa dúvida sobre os estragos. #Dia das Crianças e o Excesso de Tela

Estudos recentes, incluindo meta-análises e revisões publicadas entre 2023 e 2026, mostram que o tempo prolongado diante de dispositivos está associado a atrasos no desenvolvimento da linguagem, déficits de atenção e memória de trabalho, alterações profundas no sono pela supressão da melatonina causada pela luz azul, aumento de ansiedade, depressão, impulsividade e comportamentos agressivos.

Uma análise de dose-resposta com mais de 335 mil participantes, publicada por Ha e colaboradores no JAMA Network Open em 2025, revelou que cada hora adicional diária de tela digital eleva em cerca de 21% as chances de miopia, com o risco subindo de forma acentuada entre uma e quatro horas por dia.

Dia das Crianças e o Excesso de Tela

Outra ampla revisão, publicada em 2026 por Teague e colaboradores no JAMA Pediatrics e reunindo 153 estudos longitudinais com cerca de 360 mil crianças e adolescentes, encontrou associação consistente do uso de redes sociais com mais depressão, problemas comportamentais, pensamentos de autolesão e menor desempenho acadêmico e autoimagem. #Dia das Crianças e o Excesso de Tela

No Brasil, revisões integrativas de 2025 confirmam os mesmos padrões: prejuízos no neurodesenvolvimento, aumento de obesidade, sedentarismo e dificuldades socioemocionais quando o uso ultrapassa as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Mas  Maria Augusta, pra que tantos artigos científicos? Explico: para que cada vez mais entendamos que celular não é brinquedo e deve ficar longe das crianças. No caso dos jovens já com uma tela na mão a recomendação e dobrar os momentos de dialogo e controle parental para que ninguém fique “virando a noite”.

Diante desse cenário, o controle parental técnico, embora necessário, é apenas o ponto de partida. Pais e responsáveis precisam ir além das senhas e bloqueios.

Dia das Crianças e o Excesso de Tela

A evidência aponta para a mediação ativa: conversar diariamente, sem moralismo, sobre o que a criança ou o adolescente vê, sente e com quem interage; assistir, jogar ou navegar junto sempre que possível, priorizando qualidade de conteúdo e presença adulta; estabelecer regras familiares claras e consistentes,  sem telas nas refeições, nos quartos e pelo menos uma hora antes de dormir, com dispositivos permanecendo em áreas comuns da casa.

É fundamental servir de modelo, porque crianças imitam o comportamento dos adultos que ficam permanentemente no celular. Oferecer atividades offline estruturadas, como esporte, brincadeira livre, leitura e contato com a natureza, ajuda a ocupar o espaço que a tela tende a preencher.

Investir em educação midiática e de segurança digital também faz diferença: ensinar a reconhecer perfis falsos, a não compartilhar dados pessoais ou imagens íntimas e a denunciar situações estranhas. O diálogo aberto e a construção de “contratos” familiares sobre redes e jogos costumam funcionar melhor do que proibições rígidas isoladas.

Dia das Crianças e o Excesso de Tela

Há, ainda, um lado mais sombrio. O excesso de tela amplia a superfície de ataque de criminosos que, o ano inteiro e especialmente em períodos de maior presença online como o Dia das Crianças, ficam à espreita.

Dados da Polícia Federal mostram que em 2025 foram realizadas 1.132 operações contra crimes de abuso sexual infantojuvenil praticados pela internet , média de três operações por dia, com aumento expressivo de inquéritos e de vítimas resgatadas.

Investigadores da Polícia Civil de São Paulo mapearam, em um ano e meio, cerca de 1.300 vítimas, a grande maioria meninas entre seis e quinze anos. As plataformas mais usadas para o primeiro contato e o aliciamento são Discord, Telegram e Roblox, frequentemente como porta de entrada, seguidas de Instagram e WhatsApp.

Dia das Crianças e o Excesso de Tela

O padrão é conhecido: o criminoso se passa por criança ou adolescente, inicia amizade ou “namoro virtual”, conquista confiança, pede imagens íntimas e depois inicia chantagem e sextorsão, migrando o contato para canais privados ou servidores fechados. A PF reforça periodicamente o alerta: é fundamental acompanhar quem os filhos adicionam, o que compartilham e em quais grupos ou servidores entram.

Com tantos artigos científicos, dados de policia federal se faça a pergunta: meu filho(a) precisa de um telefone o tempo todo? Estamos dispostos a bancar emocionalmente e financeiramente os estragos que o acesso a tecnologia pode oferecer as crianças e jovens?

O Dia das Crianças pode ser celebrado com alegria e presentes, mas a melhor proteção continua sendo a presença adulta consciente, o limite inteligente e a conversa diária. A tela não precisa ser vilã, desde que não ocupe o lugar da infância.

Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia

 

 

 







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