Ninguém aguenta mais o estrago que as bets fazem na vida das pessoas. Mas Bets também mata. E o cansaço financeiro das famílias que veem o dinheiro sumir mês após mês, a angústia de quem tenta ajudar e não consegue, e o silêncio de quem se sente preso a um ciclo que parece não ter fim.
O cenário de endividamento no Brasil reforça esse alerta. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em maio de 2026 o percentual de famílias endividadas chegou a 81,6%, o maior patamar da série histórica. Parte desse aperto tem relação direta com o avanço das apostas online. Estimativas da própria CNC indicam que as bets drenaram cerca de R$ 143 bilhões do varejo entre 2023 e 2026 e empurraram centenas de milhares de famílias para a inadimplência severa.

Há ainda um dado oficial que não pode ser minimizado. Em agosto de 2024, o Banco Central revelou que cerca de 5 milhões de pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para casas de apostas em um único mês. Setenta por cento desses apostadores eram chefes de família. O número mostra com clareza que o vício alcança até quem vive em situação de maior vulnerabilidade.
Enquanto os números se acumulam, o setor se organiza. Associações de empresas de apostas e articulações políticas atuam de forma intensa para influenciar a regulamentação, contestar dados oficiais e resistir a medidas mais restritivas. O interesse econômico é claro: quanto mais gente aposta, maior o faturamento. Por isso o lobby pressiona contra regras que possam limitar a publicidade, restringir o acesso de vulneráveis ou endurecer o controle sobre a prática. O resultado é um descompasso entre o lucro de poucos e o prejuízo coletivo de muitos. Bets também mata

O problema, portanto, não é apenas financeiro. É de saúde mental, de estrutura familiar e de dignidade. Estudos internacionais mostram que pessoas com comportamento problemático de jogo apresentam risco de suicídio significativamente mais elevado. Em alguns países, esse risco chega a ser 15 vezes maior do que na população geral. Bets também mata
No Brasil, relatos de tentativas e de mortes ligadas ao vício em bets se multiplicam, e a procura por atendimento no SUS por transtorno do jogo cresceu de forma expressiva nos últimos anos. A pessoa entra no jogo buscando alívio ou esperança de recuperação rápida e termina presa a um ciclo que destrói.
É exatamente nesse ponto que o Setembro Amarelo precisa ser mais do que uma data no calendário. Precisa ser um chamado firme para pedir ajuda.

Se você está nessa situação, ou conhece alguém que está, não fique sozinho. Ligue para o CVV no 188 (gratuito e 24 horas), procure um profissional de saúde mental ou um serviço de atenção psicossocial. O primeiro passo é o mais difícil, mas é também o que abre caminho para a recuperação.
Assim o vício em bets não escolhe classe social nem história de vida. Ele se aproveita da facilidade de apostar a qualquer hora e da falsa promessa de ganho rápido. Por isso a conversa precisa ser aberta, sem julgamento e com responsabilidade. Quanto mais se fala, mais gente consegue enxergar a saída antes que seja tarde. #Bets também mata
Enfim…cuidar da vida é um ato coletivo. E, neste Setembro Amarelo, isso inclui enfrentar com seriedade o que as bets estão fazendo com a saúde mental e financeira de tanta gente.
Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia
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